O funk é feminista sim! My pussy é o poder

20.2.14
Na quarta-feira foi feita uma postagem na página do Facebook Feminismo Sem Demagogia. A postagem versava sobre o funk e seu papel no feminismo. Sem demora, houve uma grande quantidade de comentários, sendo que a grande maioria condenava o funk e as funkeiras, acusando-as de produtos do machismo, com uma ótica totalmente elitista. Não bastasse isso, havia também as clássicas acusações sobre as funkeiras não se “darem o valor”, não “se respeitarem” e ainda “serem vulgares”.

Em razão do preconceito que ainda existe contra o funk e como muitas das pessoas que comentaram na postagem se assumiam feministas, faz-se necessário, então, apresentar uma discussão sobre o funk e seu papel no feminismo.

O funk que se ouve no Brasil não é o mesmo originário dos Estados Unidos. O funk brasileiro, oriundo do Estado do Rio de Janeiro e por isso chamado de funk carioca, é um estilo musical que ganhou força a partir dos anos 70, com a promoção de bailes de black, soul, shaft e funk, bem como com a busca por novos estilos de música negra.

No começo dos anos 2000 vieram à tona as mulheres do funk. Inicialmente, elas limitavam-se apenas a dançar e participar dos clipes musicais, para o deleite dos olhos masculinos. Eram as tchutchucas, as preparadas, as cachorras, as popozudas. Essas denominações tinham um significado lógico: o exercício da dominação do homem sobre a mulher, tema sobre qual versava a música funk na época. Durante anos o único papel da mulher no funk era simplesmente decorativo. 

Uma das justificativas para a Marcha das Vadias ter este nome é a intenção de tirar o peso negativo da palavra “vadia” e mudar seu significado para o mundo. Os termos usados pelas funkeiras em suas letras seguem o mesmo princípio. A única diferença é que a linguagem do funk é voltada para seu público-alvo: as classes mais baixas. As funkeiras cantam para as mulheres da favela e dialogam com elas. E falar de liberdade sexual e do prazer feminino de forma honesta e direta é uma das bandeiras do feminismo. 

Uma das funkeiras mais conhecidas e que recentemente virou tema de tese de mestrado é Valesca Popozuda. Valesca sempre se identificou como feminista e fez inúmeras campanhas contra o fim da homofobia e do machismo. Ela foi, inclusive, uma das poucas cantoras que contratou uma mulher trans para dançar em seus shows.

Numa de suas músicas Valesca canta: “Só me dava porrada/ e partia pra farra/ Eu ficava sozinha esperando você / Eu gritava e chorava, que nem uma maluca/ Valeu, muito obrigada, mas agora eu virei puta!”. O discurso político e feminista cantado por Valesca remonta à história das mulheres que sofrem violência doméstica. A letra fala, inclusive, do assédio moral além das agressões físicas. A mulher retratada na canção era agredida, abandonada, sofria todo o tipo de humilhações. Esta mesma mulher busca sua libertação e a alcança, se tachando e sendo tachada de “puta” por ter abandonado o marido que a agredia e o casamento fracassado. 

Não tem como negar o discurso feminista embutido nessa canção. Valesca dialoga essencialmente com a mulher de baixa renda, com a mulher que mora em comunidades, com a mulher que, por desconhecimento, ainda acha que deve obediência e submissão ao seu homem. Esta mulher, que não conhece Simone de Beauvoir ou Virginia Woolf, é atingida. Conhece o feminismo a partir das canções de Valesca.

Muitas pessoas feministas repudiam com veemência a ideia de que existe feminismo no funk, nas músicas cantadas pelas funkeiras, no estilo de dança realizado. Há moralismo nas críticas feitas em desfavor do funk, além do elitismo visível. O que muitas pessoas não entendem é que o funk é um tipo de arte cultural. Pode não ser cultura da classe média, mas é a cultura do "povão". Nenhuma pessoa é obrigada a apreciar o funk ou a dançar funk, mas é necessário reconhecer seu papel político ante as mulheres de baixa renda. Não é à toa que o fato de uma estudante de mestradoter escolhido como tema de sua tese o papel da Valesca no feminismo tenha causado tanta repercussão. Reconhece-se o funk, o grito do povo, como arte. A classe média chora inconformada.¹
[...] No funk, há a crítica de que as músicas apresentam as mulheres como meros objetos sexuais (um lugar de subordinação do qual as feministas lutaram para nos retirar). Mas é preciso admitir os apelos de liberdade sexual da juventude como uma consequência positiva do feminismo.Valorizar essa liberdade é também um gesto político. Para isso, devemos pensar no feminismo não como um clube exclusivo ao qual se tem acesso por tortuosos caminhos institucionais (quem vende o título deste clube? Onde entregam a carteirinha?), mas como aquilo que o inspirou desde o começo: ser um movimento plural, sem hierarquia, dogmas, controle ou estruturas centralizadas, que não defende uma verdade, mas está em permanente construção de uma agenda em evolução. Assim, devemos mais é comemorar que a pauta da liberdade sexual tenha chegado ao funk – no que se espera que seja um permanente processo de expansão desde as primeiras reivindicações do movimento feminista.²
¹:  Esse texto foi um guet post retirado do blog Escreva Lola Escreva
²: Trecho retirado da Super Abril, escrito por Carla Rodrigues.
Imagem: google
Beijos, Aloha!

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